A bovinocultura, tanto de corte como leiteira, abrange todo o território nacional, sendo considerada uma atividade econômica importante para o país, alcançando o valor bruto de produção anual acima de R$ 190 bilhões. Entretanto, todo o rebanho está suscetível a enfermidades comuns que afetam o desempenho animal. Nesse contexto, o carrapato bovino caracteriza-se como um dos principais problemas enfrentados nas propriedades e encontra-se em constante crescimento motivado pela intensificação da criação de animais e pelo aumento da ineficiência de carrapaticidas por conta da resistência dos carrapatos.

O carrapato dos bovinos (Boophilus microplus) é um parasita pertencente à classe Arachnida, e obrigatoriamente necessita completar uma das fases da vida em um hospedeiro. O ciclo de desenvolvimento se inicia com o acasalamento do macho e da fêmea no rebanho. As fêmeas continuam presas aos animais para alimentação e formação dos ovos, totalizando um período de parasitismo entre 18 e 22 dias. A proteína adquirida pelo sangue bovino proporciona um aumento de tamanho do carrapato de 200 vezes, processo conhecido como ingurgitamento (Figura 1A).

Após se desprenderem, as fêmeas iniciam uma busca por locais úmidos e ao abrigo do sol para fazer a digestão das proteínas e iniciar a formação dos ovos, aproximadamente 3.000 por fêmea. Nessa fase não parasitária, os carrapatos são comumente chamados de mamona ou jabuticaba.

Os ovos demoram cerca de 60 dias para eclodirem nos meses úmidos com temperaturas elevadas e 120 dias nas estações secas e frias, dando origem aos micuins, como são popularmente chamados. Esses novos indivíduos permanecem sob o solo por um período de três dias, para endurecimento das cutículas e, em seguida, se juntam e seguem em direção à ponteira das plantas onde ficam aguardando a passagem dos animais para dar início à fixação e à nova fase parasitária.

Nos animais, são identificados superficialmente pela presença de feridas ou pelos próprios carrapatos (Figura 1B), formando orifícios que podem servir de porta de entrada para outras pragas, como as larvas de moscas, responsáveis por enfermidades conhecidas por bicheiras e bernes. Além disso, as feridas depreciam a pele dos animais, desvalorizando o couro no mercado. 

Figura 1. Fêmea ingurgitada de Boophilus microplus (A); Bovino infestado com carrapatos dos bovinos (B). Fonte: Renato Andreotti - Embrapa Gado de Corte (A); Cristina Brito/Embrapa Pecuária Sudeste (B).

Os carrapatos também podem ser transmissores de doenças aos bovinos como a Babesiose, causada pelos protozoários Babesia bovis e Babesia bigemina, e a Anaplasmose, ocasionada pela Anaplasma marginale. As duas fazem parte do complexo conhecido como Tristeza Parasitária Bovina (TBP). Os sintomas são basicamente febre, anemia, desidratação, coloração amarela nas mucosas (icterícia), urina de coloração escura (hemoglobinúria), entre outros.

Algumas medidas podem contribuir para a redução das condições de desenvolvimento do carrapato, como a seleção de animais resistentes; a implantação de pastos com gramíneas que desfavoreçam o aumento da população desses parasitas, como andropogon ou capim-gordura; e a rotação dos piquetes evitando lotação máxima nos pastos, concedendo descanso à área de 70 a 90 dias no verão. Porém, a utilização de princípios químicos tem se mostrado o método de controle mais usado e eficiente.

Os princípios ativos mais utilizados são: amitraz (amidinico), clorfenvircos (organofosforados), deltametrina (piretroides), fipronil (fenilpirazoles), entre outros. A aplicação no animal pode ser feita por banhos de imersão e pulverizações de produtos de contato ou tipo pour on. O objetivo é diminuir a quantidade de carrapatos nos animais por alguns meses, sem a necessidade de novas aplicações, formando uma espécie de barreira aos parasitas. Os banhos são feitos individualmente e repetidos de 5 a 6 vezes, em intervalos de 21 dias, evitando esses procedimentos em horários de sol a pino ou sob condições de chuva. As pulverizações de contato devem atingir todo o corpo, são recomendados de 2 a 4 litros de solução do produto por animal. A aplicação adequada é feita na direção contrária aos pelos com movimentos de cima para baixo, com pressão suficiente para a penetração do produto na pele. São de 5 a 6 aplicações, em intervalos de 21 dias entre elas. Já o pour on deve ser aplicado no máximo 3 ou 4 vezes, com intervalos de 30 dias entre aplicações, por ser um produto com maior residual.

Vale ressaltar que, após o tratamento, um número pequeno de animais ainda pode carregar carrapatos em seu corpo, eles são conhecidos como sangue doce, por isso necessitam da repetição do tratamento caso haja aproximadamente 25 fêmeas de parasitas.

Na grande maioria das propriedades, o uso de carrapaticidas é feito indiscriminadamente, desrespeitando o número de aplicações e dosagens recomendadas pelo fabricante do produto. Além disso, substituem os ingredientes ativos, muitas vezes desnecessariamente. A mudança do princípio químico deve ser feita apenas quando o controle estiver menos eficiente e geralmente após dois anos do uso.

Na alternância do carrapaticida são recomendados testes de resistência naquela população, coletando 10 carrapatos fêmeas ingurgitadas, mergulhando-as por 5 minutos em soluções contendo o produto químico. Da mesma maneira, é feita a imersão em água de 10 fêmeas, considerando-as alvos-controle para avaliação do efeito. Em seguida, os indivíduos são retirados e mantidos secos em recipientes separados, abrigados do sol e em condições de alta umidade, no período entre 7 a 10 dias, para avalição da quantidade de posturas e qualidade dos ovos liberados, determinando, dessa forma, o nível de resistência ao carrapaticida.

Em razão da ocorrência do carrapato em todos os Estados do país, em variadas estações do ano, exceto no sul do país, com menor incidência no inverno, as estratégias de controle devem ser adaptadas para cada região por conta da diferenciação entre os climas locais. Com isso, o controle estratégico também é uma forma eficiente de controle, quando as épocas de aplicação dos carrapaticidas nos animais são específicas para cada localidade.

As regiões centrais do país, como centro-oeste e sudeste, são conhecidas por possuírem duas épocas distintas no ano, ou seja, das águas (primavera e verão), compreendida entre os meses de outubro e março, e da seca (outono e inverno) nos meses de abril a setembro. A estação das águas, com temperaturas e umidade altas, favorece o desenvolvimento e eclosão dos ovos, entretanto, as larvas se desidratam facilmente reduzindo o alcance aos bovinos. Nesses meses a quantidade de carrapatos no pasto é menor, sendo o melhor momento para a realização do controle químico nos animais.

Particularmente, algumas regiões do sudeste, com maior altitude, apresentam microclimas com temperaturas médias mais baixas, favoráveis ao desenvolvimento do carrapato no pasto. Com isso, a estratégia de controle muda e deve ser baseada no controle das gerações de carrapatos do início da primavera através da aplicação de carrapaticidas. Há também uma particularidade na região do cerrado, onde o clima seco, entre os meses de julho a setembro, barra o desenvolvimento dos parasitas no pasto, caracterizando uma época propicia para o controle químico nos animais.

Na região sul, o inverno atua diretamente de maneira natural no ciclo dos carrapatos, auxiliando na diminuição da população por conta das baixas temperaturas. Nessas localidades, o uso dos carrapaticidas é recomendado em três épocas do ano, no início da primavera, entre os meses de setembro e outubro; em dezembro; e entre fevereiro e março.

Na região nordeste, especificamente na zona da mata e agreste, a estratégia de controle se concentra no início das chuvas, de janeiro a março. Nesse período, a disponibilidade de água é maior favorecendo a postura dos ovos, que antes era lento por conta da umidade relativa do ar muito baixa devido a seca. Quando chove, geralmente após 2 a 3 meses, a quantidade de larvas no campo aumenta. A proteção dos animais é feita logo no início do período das chuvas, visando à redução da infestação.

O ideal é concentrar as aplicações quando a quantidade de carrapatos nas pastagens for baixa, melhorando a eficácia do produto e consequentemente contribuindo para a diminuição das próximas gerações dos parasitas.

 

Fontes Consultadas

CHIEBAO, D. P. et al. Controle do carrapato dos Bovinos. Pesquisa & Tecnologia, vol. 3, n.2, Jul-Dez 2006. Disponível em: < http://www.aptaregional.sp.gov.br/acesse-os-artigos-pesquisa-e-tecnologia/edicao-2006/2006-julho-dezembro/392-controle-do-carrapato-dos-bovinos/file.html>. Acesso em 14 de novembro de 2016

 

FURLONG, J. Controle estratégico do carrapato dos bovinos de leite. Instrução técnica para o produtor de leite. Embrapa Gado de Leite. Disponível em: . Acesso em: 14 de  novembro de 2016.

 

FURLONG, J. Carrapato: problemas e soluções. Embrapa Gado de Leite. Juiz de Fora, MG, 2005. 65p. Disponível em: . Acesso em 14 de novembro de 2016.

 

MAPA. Dados de rebanho bovino e bubalino no Brasil – 2015. Disponível em: . Acesso em: 14 de novembro de 2016.

 

Elaborado por

Casa do Produtor Rural

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ/USP

 

Douglas Augusto de Lima Cavalli

Graduando em Engenharia Agronômica

Estagiário - Casa do Produtor Rural - ESALQ/USP

 

Foto de capa: Edson Antonio Polo

 

Acompanhamento técnico

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Engenheira Agrônoma

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