Os nematoides são organismos microscópicos que infestam o solo e atacam as raízes das plantas. No café, podem dizimar grandes áreas de cultivo tornando inviável a implantação de novas lavouras na área contaminada. Devido aos grandes danos causados na agricultura em geral, o princípio de controle usado é a exclusão, ou seja, impedir a entrada do patógeno na área de cultivo.

A ocorrência da praga é mais severa em épocas secas, mais comumente em solos arenosos, degradados e com pouca matéria orgânica. Parasitam o sistema radicular da planta obstruindo os vasos lenhosos, reduzindo a absorção de água e nutrientes e diminuindo a resistência da planta. Com o tempo, as raízes são destruídas e o cultivo tem a produtividade comprometida.

O nematoide tem alta capacidade de disseminação e de permanência na área infectada, quando em condições favoráveis, podendo ocorrer pela água da chuva ou da irrigação, que os arrastam para outros locais, pelo trânsito de animais e implementos agrícolas entre as áreas de cultivo, e por meio de mudas contendo solo contaminado.

Após a infecção, os nematoides migram pelas células, quebrando as paredes celulares para se locomoverem e consumirem o amido intracelular, acarretando em alargamento celular e inchaço nas raízes. A contaminação compromete diversas funções fisiológicas do cafeeiro por causa do sistema radicular deformado, reduz o crescimento e prejudica o desenvolvimento da planta. É possível observar algumas características típicas em pés de café infectados como, amarelecimento foliar (Figura 1), seguido de clorose e severa desfolha, provocando queda na produtividade ou até a morte. Os sintomas são potencializados em climas secos, que promovem o enfraquecimento da planta.



Figura 1: atrás, um cafeeiro jovem e saudável, e à frente um cafeeiro contaminado por nematoides. Fonte: Prof. Dr. Mário Inomoto. Produção Vegetal - ESALQ/USP.


As principais espécies de nematoides que atacam o café são Meloidogyne spp. e Pratylenchus spp. A diferenciação e a identificação são realizadas somente por análise laboratorial, a partir de amostras de solos e das mudas. A amostragem mais adequada é a sistemática estratificada, quando recomenda-se andar pela área retirando as amostras em intervalos de espaços fixos e iguais, conforme a Figura 2. As amostras devem ser retiradas entre 0 e 30 cm de profundidade e conter 200 g de raiz e 1 kg de solo. Quanto mais amostras, maior a precisão da diagnose.

Figura 2: Exemplos de esquemas de amostragem em áreas com nematoides.

Fonte: Adaptado da Embrapa.

Os Meloidogyne spp. são conhecidos como nematoides das galhas, causam o hipertrofismo ou hiperplasia radicular, aumentando as células, deformando as raízes e reduzindo seu desenvolvimento (Figura 3). Constitui-se de mais de 90 espécies, sendo 19 associadas ao café. No Brasil, as principais são M. exigua, M. incognita e M. paranaensis.


Figura 3: Galhas em sistema radicular.

Foto: R.J. Reynold Tobacco Co., Bugwood

Solos do tipo latossolo vermelho e temperaturas entre 15 e 40ºC são ideais para a propagação da espécie, porém o excesso de umidade diminui a multiplicação da praga. Quanto maior a profundidade do solo, menor o número de nematoides, em razão da menor quantidade de raízes disponíveis. Os ovos sobrevivem por seis meses em solos sem hospedeiros ou 17 meses quando há restos culturais.

O Meloidogyne exigua é a espécie de maior ocorrência no Brasil. Penetra pela ponta da raiz e migra entre as células até atingir o cilindro radicular principal da planta, onde fixa a cabeça para se alimentar, enquanto o corpo se estende pelo córtex. Causa galhas arredondadas na raiz, principalmente nas mais jovens, e posteriormente é necrosada deixando de exercer as funções de nutrição da planta.

A espécie considerada mais danosa e de difícil controle no café é a Meloidogyne incognita, pois apresenta grande variedade de hospedeiro e alta capacidade de sobrevivência nos solos, podendo resistir por até dois anos no ambiente sem hospedeiros. Causa escamações, rachaduras e necroses nas raízes e, na parte aérea, clorose nas folhas, desfolhamento e redução no desenvolvimento da planta.

A Meloidogyne paranaensis se reproduz por partenogênese, reprodução assexuada sem necessidade de fecundação do óvulo, obtendo rápido crescimento populacional, por isso tem alta capacidade de disseminação. É comum o abandono da produção cafeeira em muitas áreas, obrigando a mudança do cultivo para alguma cultura não suscetível. O nematoide deixa as raízes engrossadas, descascadas e com pontos de necrose, na parte aérea causa desfolha e interfere no crescimento radicular, afetando o desenvolvimento da planta.

O Pratylenchus spp. tem grande ocorrência no Brasil, pois é favorecido pelo clima ameno e temperaturas entre 10 e 32ºC, solos com baixa umidade e pH entre 5,0 e 7,0. Sua reprodução é dependente da temperatura, atingindo picos de procriação aos 30 a 35ºC, em temperaturas superiores a reprodução é inibida. A Coffea robusta é a espécie mais suscetível a esses nematoides.

A reprodução dos nematoides geralmente acontece por meio da deposição dos ovos nas raízes ou no solo e são sensíveis a baixas temperaturas, preferindo ambientes entre 30 e 35ºC. A eclosão acontece em 14 dias e, na forma juvenil, ataca as plantas invadindo as raízes principalmente pela ponta. Após 30 dias, tornam-se adultos, atingindo um ciclo completo de vida de 48 dias. Eles atacam tanto na forma juvenil quanto adulta, invadindo as raízes principalmente pela ponta. Possuem alta capacidade de sobrevivência devido a falta de especificidade de hospedeiros e habilidade de entrar em dormência quando estão em condições desfavoráveis. Dentre as plantas invasoras, a Brachiaria decumbens é a espécie mais danosa à plantação de café, uma vez que proporciona a reprodução dos nematoides, elevando o número de parasitas rapidamente pela área.

O controle dos nematoides em cafeeiros pode ser por exclusão e implantação de espécies resistentes. Em áreas infestadas, os métodos utilizados são controle químico e biológico.

A exclusão consiste em evitar a entrada dos patógenos na área de cultivo, adquirindo mudas sadias e irrigando com água livre do patógeno. Após o final do ciclo cafeeiro, o solo deve ser limpo, eliminando os restos culturais deixando-o exposto ao sol por 3 semanas para reduzir a população de nematoides. Plantas invasoras suscetíveis aos nematoides como, corda-de-viola, pé-de-galinha, maria pretinha, tiririca e azedinha devem ser eliminadas.

O método de controle mais econômico é o genético, por meio do melhoramento, impede-se que o ciclo do nematoide se complete e reduz a reprodução do patógeno. Uma planta é considerada resistente quando não é afetada pela praga, e tolerante quando os danos são menores. As variedades de Coffea arabica possuem baixa tolerância às infestações da praga, enquanto outras espécies como a cultivar Coffea canephora, apresentam resistência a algumas raças de Meloidogyne spp. Por este motivo, pode ser realizada a enxertia como combate ao nematoide, que consiste na junção de dois tecidos de diferentes espécies, com características distintas, obtendo as qualidades desejáveis das duas plantas em uma única. Como porta-enxerto são utilizadas variedades de cafés robustas resistentes aos nematoides, como o Apoatã IAC 2258, e para enxerto é selecionada a variedade de café mais adaptada na região.

O controle químico é utilizado na área infestada e se baseia no uso de nematicidas, que podem ser granulados, atacando os nematoides por contato no solo ou sistêmico, quando o produto é absorvido pelos vasos do xilema e floema, agindo no interior da planta. Os produtos podem cessar ou diminuir o aumento populacional por até 90 dias, porém não afetam todas as raças de nematoides e não eliminam totalmente os parasitas no solo em razão de sua ampla disseminação. Por isso, são considerados de baixa eficiência e não devem ser utilizados como único método de controle. Recomenda-se duas aplicações por ano, a primeira no início da época chuvosa, em novembro, e a segunda após três meses. Os nematicidas mais utilizados possuem aldicarb e carbofuran como ingrediente ativo. O produto é aplicado em sulcos dos dois lados da planta, manualmente ou com equipamentos de aplicação de granulados (granuladeira ou matraca).

O controle biológico é efetivo e muito usado em produções orgânicas, constitui no uso de inimigos naturais dos nematoides. As bactérias e fungos utilizados no controle são específicos, sendo necessários diversos agentes para controlar as distintas raças da praga.

A bactéria principal é a Pasteuria penetrans por apresentar resistência ao calor, a climas secos e aos principais nematicidas utilizados. Ataca o Meloidogyne exigua, reduzindo em cerca de 65% a população. Pode ser adquirida comercialmente e a aplicação é feita em covas próximas às plantas, em pontos estratégicos de grandes ataques dos nematoides, incorporando a bactéria no solo infestado.

O controle com fungo é feito principalmente com as espécies Pochonia chlamydosporia e Monacrosporium robustum. O primeiro reduz a quantidade dos parasitas por se alimentar dos ovos dos nematoides. O M. robustum é um fungo nematófago, possui estruturas especializadas em suas hifas para predá-los. Podem ser adquiridos comercialmente e pulverizados nas lavouras seguindo as recomendações. Desenvolvem-se melhor em áreas irrigadas, pois sua multiplicação é favorecida pela umidade.

No controle cultural, podem ser utilizadas plantas antagônicas nas entrelinhas da lavoura de café como, crotalárias, cravo de defunto e mucunas. Essas plantas atraem os hospedeiros e suas raízes contêm substâncias tóxicas que inibem o desenvolvimento dos nematoides até a forma adulta. As crotalárias, em específico, possuem substâncias que impossibilitam o movimento dos nematoides.  

O uso em conjunto de todos os métodos de controle impede a entrada do nematoide na área de cultivo, porém é necessário o envolvimento de toda a região, toda incluindo os terrenos vizinhos, em razão da rapidez da disseminação do nematoide.

Fontes consultadas:

BARBOSA, D. Levantamento dos nematoides de galha (Meloidogyne spp.) em áreas cafeeiras fluminenses e estimativa dos seus danos à produtividade regional. Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Barbosa. Campos dos Goytaces – RJ. F. 65-79, 2003.

GOULART, A. Coleta de amostras para análise de nematoides: recomendações gerais. Embrapa. Planaltina – DF. 31 p. 2009

JÚNIOR, J ET AL. Alternativas para o manejo integrado de nematoides-das-galhas do cafeeiro. Embrapa. Porto Velho – Rondônia. 17 p. Disponível em: <https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1050214/1/Doc160cafeeiroHNC.pdf> Acesso em: 12 de outubro de 2016

SOUZA, R. Plant-parasitic nematodes of coffee. Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. 2008.

TOBACCO, R. Root-knot nematode. Bugwood. Disponível em: <http://www.missouribotanicalgarden.org/gardens-gardening/your-garden/help-for-the-home-gardener/advice-tips-resources/pests-and-problems/diseases/nematodes/root-knot-nematode.aspx>  Acesso em: 11 de outubro de 2016.

Elaborado por

Casa do Produtor Rural

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ/USP

 

Victor Felippe Del Vecchio Rangel

Graduando em Engenharia Agronômica

Estagiário - Casa do Produtor Rural - ESALQ/USP

 

Foto da capa: William Wergin /Richard Sayre

 

Acompanhamento técnico

Fabiana Marchi de Abreu

Engenheira Agrônoma

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Coordenação editorial

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Agente de Comunicação

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