O milho grão é sem dúvida a matéria-prima mais utilizada na formulação de dieta animal, em razão da sua excelente característica nutricional. Seu uso na alimentação de bovinos varia de acordo com a disponibilidade de forragens e com as exigências nutricionais requeridas. Apesar dos benefícios, o milho apresenta algumas desvantagens, como a oscilação de preço em função de fatores climáticos, uso na alimentação humana e produção de etanol, no caso dos EUA.

Quando a cotação do milho está elevada no mercado, são necessárias alternativas para sua substituição parcial. O uso de aditivos e coprodutos da agroindústria na alimentação bovina vêm crescendo cada vez para aumentar a eficiência alimentar e reduzir os custos operacionais. Estudos comprovam que a glicerina natural, subproduto da fabricação de biodiesel, é uma alternativa econômica e nutricionalmente viável na substituição parcial do milho grão.

É importante ressaltar que a glicerina natural é fabricada a partir de óleos vegetais e gorduras, diferente da sintética, que é proveniente do petróleo. O biodiesel é fabricado por meio de um processo químico em que a glicerina é separada da gordura ou do óleo vegetal. No final do procedimento, são gerados ésteres (biodiesel), glicerina e outros subprodutos, como as tortas e farelos, que também podem agregar valor através de outras fontes de renda importantes aos produtores.

Para cada litro de biodiesel produzido é gerado aproximadamente 10% de glicerina, a qual ao ser ingerida pelo animal, é rapidamente metabolizada pelo organismo, contendo aproximadamente 80% de glicerol. A concentração de glicerol varia de acordo com a qualidade do processo de esterificação na fabricação do biodiesel. No Brasil, as principais fontes utilizadas para produção de biodiesel são o óleo de soja e a gordura bovina.

Tabela 1. Principais componentes de glicerina produzida em 16 usinas de biodiesel.
 

Parâmetro

Média

Mínimo

Máximo

Glicerol (%)

74.4

30.4

90.1

Umidade (%)

9.7

0.8

26.6

Lipídios totais (%)

7.8

0

37.7

Cinzas (%)

5.3

2.3

12.1

Sódio (g/kg)

20.8

6.1

28.2

Fósforo (mg/kg)

541

17

2 111

Cálcio (mg/kg)

36.2

0

153

pH

7.2

2.3

12.7

Fonte: SILVA, 2013.

 

Nos bovinos, o glicerol participa de processos do metabolismo celular, formação da glicose e síntese de fosfolipídios e triglicerídeos, além de ser utilizado por microrganismos ruminais na produção de ácidos graxos voláteis como, propiônico e butírico. O aumento de propionato está diretamente relacionado com a formação de glicose no fígado, ou seja, quanto maior a concentração no organismo do animal, maior a disponibilidade de energia para o metabolismo celular.

 

No fígado, o glicerol pode ser direcionado para síntese de triacilglicerol, aumentando a deposição de lipídios. Em relação aos valores de Espessura da Gordura de Cobertura (EGC), mensurados entre a 12ª e 13ª costela, bovinos que receberam dieta com glicerina juntamente com óleos funcionais obtiveram um melhor acabamento dessa gordura, com aumento em torno de 25% na EGC.

 

É importante salientar que, como o teor de proteína bruta na glicerina é praticamente nulo (entre 0,01 e 0,07%), a substituição parcial do milho reduz a quantidade de proteína na dieta, necessitando aumentar a fonte proteica. Estudos mostram que na substituição de 20,8% do milho na dieta total, é necessário acrescentar mais 4,7% de farelo de soja para balancear a dieta com 10,7% de proteína bruta, valor adequado aos bovinos de corte.

Outro aspecto importante é a ausência de fibra na glicerina. Substituindo 20,8% da dieta de milho pela glicerina, os teores de fibra reduzem em 12,69% para fibras em detergente neutro (FDN), 2,08% para fibras em detergente ácido (FDA) e 2,15% em fibra bruta (FB). A adição de fibras na dieta é muito importante, pois estimulam a mastigação, ruminação, salivação e a motilidade ruminal. Além disso, é rica em elementos tamponantes, que mantêm o pH em níveis adequados. Quando a quantidade de fibra é reduzida ao mínimo (menos que 10% da FDN), podem ocorrer quedas na produção e problemas de saúde, como acidose ruminal, abcessos no rúmen e fígado, laminite, deslocamento do abomaso ou até mesmo levar o animal à morte. Portanto, para bovinos, recomendam-se níveis entre 27 e 30% e 18 e 21% de FDN e FDA na dieta, respectivamente.

As FDN correspondem à celulose, hemicelulose e lignina, sendo os melhores indicativos para obtenção do teor de fibra e qualidade da silagem. As FDA estão contidas no FDN, pois representam as frações de celulose e lignina, parte não digestível da planta que dá resistência ao caule. Portanto, quanto maior o teor de FDA, menor a qualidade e digestibilidade do alimento. A FB é referente também ao teor de fibra correspondente na celulose, hemicelulose e lignina da planta, porém ao contrário da FDN, apresenta valores subestimados de fibras e não servindo de referência para avaliação da qualidade da silagem.

A glicerina é considerada uma fonte promissora de energia na substituição parcial do milho em dietas de bovinos de corte. A substituição parcial do milho apresenta resultados positivos sem ocasionar perdas no desempenho animal. A energia bruta contida na glicerina (3,6 Mcal/kg energia bruta) é praticamente equivalente a do milho (3,9 Mcal/kg). Estudos comprovam que, para depositar a mesma quantidade de músculo, animais com dietas baseadas em glicerina consumiram menos alimento em comparação às dietas sem o composto.

A inclusão da glicerina na dieta é feita na forma líquida e, apesar do glicerol ser adocicado, como contém sódio em sua composição, confere um sabor salgado. Porém, para ser utilizada na alimentação animal, deve conter um controle de qualidade. O Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) exige que, para cada kg de glicerina deve haver no mínimo 800 g de glicerol, além de valores máximos 130 g de umidade e 150 mg de metanol. Considerando que a glicerina bruta tenha cerca de 13% de umidade e 80% de glicerol, restam 7% para outros constituintes, que correspondem principalmente a gorduras e matéria mineral.

A glicerina só deve ser utilizada se proveniente de óleos vegetais apropriados para a alimentação animal e não deve conter quantidades elevadas de contaminantes que possam causar toxidez. Além de ser um ingrediente energético, por ser líquida, também agrega as partículas da ração em temperatura ambiente. No momento de utilização, deve ser misturada à ração de forma homogênea, para evitar a formação de “grumos” que poderão ser selecionados pelos animais no cocho.

O teor máximo de glicerina permitido sem causar prejuízos ao animal varia entre 12 e 30% da alimentação. Estudos constataram que a inclusão de até 30% de glicerina bruta em dietas de bovinos da raça Nelore em terminação aumenta a eficiência de alimentação e ruminação, reduzindo o tempo e número de mastigações, além de facilitar a ingestão dos alimentos. Também provoca mudanças benéficas na carne, como diminuição no teor de colesterol e melhoria no sabor.

A rápida expansão da indústria de biodiesel no Brasil e no mundo gera um excedente de glicerina no mercado. À medida que essa produção aumenta, há maior a disponibilidade desse subproduto, e, consequentemente, uma diminuição no preço. Como o preço do milho oscila no mercado, a glicerina torna-se interessante para grandes escalas de produção, substituindo parcialmente a alimentação dos bovinos. É ainda, uma alternativa de destino ambientalmente correto dos subprodutos e coprodutos da indústria do biodiesel.

 

Fontes consultadas

ABDALLA, A. L.; FILHO, J. C. S.; GODOI, A. R.; CARMO, A. A.; EDUARDO, J. L. P. Utilização de subprodutos da indústria de biodiesel na alimentação de ruminantes. Revista Brasileira de Zootecnia, Viçosa, v. 37, p. 260-258, 2008. Suplemento especial.

D’AUREA, A.P. Glicerina, resíduo da produção de biodiesel, na terminação de novilhas da raça nelore. 2010. 47f. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, 2010.

DE OLIVEIRA STRADA, Evani Souza et al. Correlação entre o consumo e a deposição de ácidos graxos em bovinos suplementados com glicerina de baixa pureza em pastagens. Semina: Ciências Agrárias, v. 36, n. 5, p. 3269-3282, 2015.

DE SOUZA FARIAS, Mariana et al. Níveis de glicerina para novilhas suplementadas em pastagens: desempenho, ingestão, eficiência alimentar e digestibilidade. Semina: Ciências Agrárias, v. 33, n. 3, p. 1177-1188, 2012.

DONKIN, S.S. Glicerol from biodiesel production: the new corn for dairy cattle. Revista Brasileira de Zootecnia, v.37, suplemento especial, p.280-286, 2008.

Rémond, B., Souday, E. & Jouany, J. P. 1993. In vitro and in vivo fermentation of glycerol by rumen microbes. Animal Feed Science and Technology, 41, 121-132.

Silva, J., Antoniassi, R., de Freitas, S. C., & Müller, M. D. (2013). Composição química da glicerina produzida por usinas de biodiesel no Brasil e potencial de uso na alimentação animal. Ciencia rural, 43(3), 509-512.

VAN CLEEF, E. H. C. B. Glicerina bruta em dietas para bovinos da raça nelore confinados, 2012. 129 f. Tese (Doutorado em Zootecnia) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Jaboticabal, 2012.

 

 

Elaborado por

Casa do Produtor Rural

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ/USP

 

Luccas Novaes de Paiva

Graduando em Engenharia Agronômica

Estagiário - Casa do Produtor Rural - ESALQ/USP

 

Foto de capa: Gregory Feedlot - Certified Hereford Beef

 

Acompanhamento técnico

Fabiana Marchi de Abreu

Engenheira Agrônoma

CREA 5061273747

Casa do Produtor Rural

 

Coordenação editorial

Marcela Matavelli

Agente de Comunicação

DRT 5421SP

Casa do Produtor Rural